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Os sóis do Rio — Parte 2

O Senhor Jabor pai liga o rádio. Típico homem de classe média cari­oca, com um casa­rão no recente bairro da Urca, gira a vál­vula do rádio pro­cu­rando em alguma esta­ção um ritmo recente, que se opõe ao sucesso do vozei­rão de Cauby Pei­xoto, ritmo um tanto inti­mista que mis­tura jazz e samba:   “Rio de Janeiro, gosto de você/ Gosto de quem gosta/ Deste céu, deste mar, desta gente feliz”

E aquele Rio de Janeiro é mesmo pra se gos­tar. A cidade fer­vi­lha, junto com os sóis de suas praias, lirismo. Vida urbana. Liber­dade sexual. Cho­ri­nho. Bossa Nova.

Na Voz do Bra­sil, entre­me­ada pelo épico “O Gua­rani”, se anun­cia os bene­fí­cios da implan­ta­ção do salá­rio mínimo em maio daquele ano de 1940. Getú­lio Var­gas cogita inves­ti­men­tos para criar uma side­rúr­gica em Volta Redonda. O senhor Jabor pai pensa no filho, recém nas­cido, que car­rega a insíg­nia zodi­a­cal de sagi­tá­rio. Fal­ta­ria muito para aquele menino, Arnal­di­nho, se tor­nar o Jabor cineasta.

Toda ali­e­na­ção será castigada

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Ape­sar de cine­asta, Jabor se con­sa­grou atra­vés das crí­ti­cas apre­sen­ta­das nos jor­nais e na televisão

Arnal­di­nho estuda no tra­di­ci­o­nal Colé­gio Santo Iná­cio. A edu­ca­ção jesuíta, em regime de inter­nato, é rígida. Missa, con­fes­si­o­ná­rio, eru­di­ção.  Sufo­cante, cas­tra­dora, mora­lista. Pelo menos, para Arnal­di­nho, man­dado pelos pais como todos os filhos de posse da época.  Mas é um período de des­co­ber­tas, de pai­xão juve­nil. Pri­meiro amor. Sexo. Lite­ra­tura. Já na facul­dade de Direito a polí­tica passa a chamar-lhe a aten­ção. Arnaldo, jovem inte­li­gente, deta­lhista e com gosto por dis­cus­sões se pre­o­cupa com o Bra­sil cheio de misé­ria e tão dis­tante daquela Urca em que vivia. Ele edita o jor­nal “O Metro­po­li­tano perió­dico ligado ao movi­mento estudantil.

Tra­ba­lha tam­bém como assis­tente dos cine­as­tas Cacá Die­gues, Leon Hirsz­man e Paulo César Sara­ceni. Eles des­per­tam Arnaldo para a arte cine­ma­to­grá­fica. Para o léxico das ima­gens em movi­mento mais do que a pala­vra lite­rá­ria.  Para des­co­brir o Bra­sil. Para o Cinema Novo. O cinema o encanta e Arnaldo já é Jabor. Ele acre­dita que é pos­sí­vel fazer uma espé­cie de inva­são crí­tica na cul­tura de mas­sas, inje­tar um pen­sa­mento refle­xivo, crí­tico, uma espé­cie de con­tra­bando cul­tu­ral. O atra­tivo: Jabor pode expan­dir as suas idéias para um público muito mais amplo que 10 mil lei­to­res de poe­sia. Pode atin­gir milhões. Os dire­to­res do Cinema Novo não são ciné­fi­los, mas uma turma que quer inva­dir o mundo da indús­tria cul­tu­ral com uma men­sa­gem este­ti­ca­mente reno­va­dora e poli­ti­ca­mente nova. E fazer cinema, para Jabor, é tão novo que tem sabor polí­tico. Revolucionário.

Sim, revo­lu­ci­o­ná­rio. “Para os cine­no­vis­tas, a arte é um ins­tru­mento de mudança social. Não havia sepa­ra­ção entre o con­teúdo e a forma, os dois deve­riam ser revo­lu­ci­o­ná­rios. É aquela ques­tão, o artista não deve­ria se sub­me­ter ao banal, ao tra­di­ci­o­nal, para bus­car atin­gir uma massa. A revo­lu­ção deve­ria vir em todos os âmbi­tos”, diz o pro­fes­sor da Unesp Célio Losnak.

Logo depois do Golpe mili­tar, em 1964, Jabor faz o curso de Cinema do Itamaraty-Unesco e dirige os docu­men­tá­rios “O Circo, de 1965, e “Opi­nião Pública, de 1967. Três anos depois filma seu pri­meiro longa-metragem de fic­ção, “Pin­do­rama”, uma alegoria da che­gada dos por­tu­gue­ses ao Bra­sil e tomada do poder pelos mili­ta­res. Um fra­casso de público e crí­tica. Futu­ra­mente, o cine­asta admi­ti­ria que fora seu pior filme. Filma tam­bém, “Toda Nudez Será Cas­ti­gada, base­ado na obra de Nel­son Rodri­gues, em que cri­tica a moral bur­guesa. Dessa vez, o sucesso foi estron­doso. O filme foi pre­mi­ado no Fes­ti­val de Gra­mado e de Ber­lim. Com “Tudo Bem”, de 1978, Jabor rea­liza seu filme mais céle­bre. Num tom de farsa e iro­nia ácidas, ele inves­tiga as con­tra­di­ções da soci­e­dade bra­si­leira, vítima do recente mila­gre econô­mico. Ganhou o prê­mio de melhor filme no Fes­ti­val de Bra­si­lia. O sucesso era grande, mas algo faltava.

Câmera na mão, idéia na cabeça, nada no bolso

Jabor

Sem mui­tas pers­pec­ti­vas no cinema naci­o­nal, Jabor opta pelo jornalismo

Jabor era muito acla­mado, mas não tinha um tos­tão no bolso. A car­reira de cine­asta não ofe­re­cia retorno finan­ceiro ao cari­oca. “Eu sei que vou te amar”, ape­sar do sucesso de público, não gerou mui­tos lucros.

Para pio­rar a situ­a­ção, o cinema bra­si­leiro entra em crise na década de 1980. A aber­tura polí­tica favo­rece a dis­cus­são de temas antes proi­bi­dos, mas as fon­tes de renda da Embra­filme come­çam a min­guar. Os cus­tos dos fil­mes aumen­tam e a capa­ci­dade de inter­ven­ção na cul­tura da esta­tal dimi­nui. Além do embate finan­ceiro, há uma enorme crise cri­a­tiva e de repre­sen­ta­ti­vi­dade no cinema bra­si­leiro, que não pro­du­ziu mais fil­mes inte­res­san­tes ou que dia­lo­gas­sem com a sociedade.

Na década de 1990 a crise se acen­tua. A retra­ção do público interno, a atri­bui­ção de prê­mios estran­gei­ros a fil­mes bra­si­lei­ros — que faz sur­gir pro­du­ções vol­ta­das para a exi­bi­ção no exte­rior -, a extin­ção da Embra­filme e o fim da reserva de mer­cado para o filme bra­si­leiro fazem a pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica cair quase à zero.

Para Los­nak, cul­par o fim da Embra­filme pelo des­man­te­la­mento do Cinema Novo é uma pole­mica. “O Cinema Novo já no fim dos anos 1970, vinha se esva­zi­ando. Havia um refluxo dos gran­des movi­men­tos soci­ais e esté­ti­cos naquele período. Todos os movi­men­tos cul­tu­rais têm um tempo de vida e a ques­tão de finan­ciar fil­mes atra­vés de apa­ra­tos do Estado era uma con­tra­di­ção: a pro­posta do Cinema Novo estava base­ada numa inde­pen­dên­cia polí­tica e de vei­cu­la­ção do filmes”.

Jabor, já infe­liz com a falta de retorno finan­ceiro e sem pers­pec­tiva para o cinema naci­o­nal, aban­dona as câme­ras para se dedi­car ao jor­na­lismo. E ado­rou a nova vida. De lá para cá, o dire­tor escre­veu colu­nas em jor­nais, falou na tele­vi­são e no rádio, já lan­çou três livros, teve filho, criou polê­mi­cas e pou­cos con­sen­sos, des­per­tou ódio e amor, fez ami­gos e mui­tos ini­mi­gos. Hoje ele escreve para 25 jor­nais, fala no rádio todos os dias e escreve 3 vezes por semana na Globo. Mas tudo isso can­sou. Pre­ci­sava se desin­to­xi­car desse uni­verso e recor­dar sua suprema feli­ci­dade para se encon­trar como Arnaldo e como Jabor.

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Esta notícia foi escrita por:

Rôney Rodrigues

Rôney Rodrigues - que já escreveu 2 notícias no Cinema Paradiso.


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