Com influências do pós-guerra, o Neo-realismo Italiano traz para as telonas o cotidiano que poucos gostariam de olhar.
Como podemos entender um filme que, se não é um documentário, é a realidade fiel, sem cortes ou edições? Como podemos assistir a um filme que nos traz a angústia, a depressão ? Sim, o Neo-realismo Italiano foi um movimento um tanto instigador para sua época, ali nos anos de 1940,50 e 60, num período pós-guerra e de muita destruição.
Muito mais do que uma história
As principais temáticas do Neo-realismo estão ligadas à situação vigente na Itália. Mussolini havia se aliado às forças alemãs e, consequentemente, às ideologias nazistas criadas por Hitler. Mesmo que houvesse cumplicidade entre os ditadores do Eixo, a população italiana não se via com os mesmo benefícios da alemã. Ou seja, aquela ficou sujeita à situações de opressão, medo, miséria e ao mesmo sofrimento que outros povos ocupados pela potência hitleriana viviam.
Com o conflito a Scuola Nazionale de Cinematografia, criada em 1932 e os estúdios Cinecittà em 1937, tornaram-se órgãos do poder fascista estabelecido, realizando filmes escapistas e extremamente literários. Os atores nem sempre estavam disponíveis devido a guerra, e as câmeras, luzes, microfones e filmes virgens escasseavam no mercado.
Após o término da Segunda Guerra Mundial e à queda de Mussolini, nasceu uma nova escola artística que propunha um novo olhar para o cinema. Um fato interessante é que, como os estúdios da Cinecittá estavam sendo utilizados para abrigar os refugiados, os cineastas saíram para as ruas para contar histórias sobre a resistência e a vida cotidiana da Itália destruída pela guerra.
A partir desse traumas do pós-guerra, cineastas e críticos italianos de cinema assumem uma posição diferente . Eles passam a criticar os problemas sociais e reagem contra aos esquemas tradicionais de produção cinematográfica, surgindo um novo movimento artístico, o Neo-realismo Italiano.
A estética simplista
A estética do Neo-realismo Italiano está simplesmente naquilo que é simples. Irônico, mas verdadeiro. Como diz a palavra, ser realista, nos termos desse movimento, é trazer a vida cotidiana para as grandes telas. A renovação do cinema ocorre na temática, na linguagem e na relação com o público.
Denise Duarte, em seu ensaio “ O Neo-realismo italiano revisitado” (03÷09÷2003), comenta que haviam “Gravações em amplos exteriores, planos seqüência, participação de não-atores nos papéis principais, a temática da miséria, da solidão, do sofrimento, o realismo em primeiro lugar, em certos momentos sendo documental, são características fundamentais desse movimento.”
Com poucos recursos, linguagem mais simples e a retratação do proletariado, dos camponeses e dos pequenos burgueses; assim se apresentavam as inovações pretendidas por nomes do Neo-realismo, como por exemplo Roberto Rosselini, Vittorio De Sica, Luchino Visconte e Federico Fellini.
Conhecendo as façanhas de cada um
“ Como fenômeno, o neorrealismo tem seus limites discutidos por vários teóricos, mas no geral se aceita que: ‘Obsessão’ (1943) de Visconti anuncia a nova maneira de se produzir cinema; ‘Roma, cidade aberta’ (1945) de Roberto Rossellini exercita plenamente a nova postura; seu momento alto é ‘Ladrões de bicicleta’ (1948) de Vittorio De Sica; e seu derradeiro representante seria “Umberto D” (1952), também dirigido por De Sica”, apresenta o folheto distribuido antes das apresentações no Sesc.
Estudante de cinema, o carioca Daniel Corrêa comenta sobre os diretores Roberto Rossellini e Federico Fellini. “ Rossellini foi o primeiro. Fellini foi o que levou isso ao extremo. Tem um filme dele que é um falso documentário até, que se chama “Ensaio de Orquestra” .É genial.”.
Daniel ainda diz que o Neo-realismo é mais do que Fellini ou Rossellini. Foi uma quebra daquela visão da trama hollywoodiana, pomposa e surreal, com personagens heróicos ou maquiavélicos. Daniel afirma também que as tramas beiram à simplicidade, como uma história qualquer que se lê no jornal ou que se vê da janela de casa. Sem contar que essa visão não fora só italiana. A Nouvelle Vague, na França, e o Cinema Novo, no Brasil, tinham pensamentos muito parecidos com o novo movimento italiano.
Algumas fatos são interessantes sobre os filmes neo-realistas. Mesmo que algumas das produções tenham sido filmados em alguns dos grande estudios da Cinecittà, a cena mais emblemática do movimento é uma externa, a do banho na fontana de trevi do filme “ A doce Vida”, de Fellini.
Outra curiosidade é que esses filmes não eram rodados com som direto. Tudo era dublado depois e muitas vezes, o roteiro era feito depois das gravações, decorrente da simplicidade e do realismo almejado.
Panorama do Cinema italiano
No final da década de 1950 e início dos anos 1960, o cinema italiano inclina-se para a investigação psicológica, retratando uma sociedade em crise. Nos anos 1970, retoma-se a discussão política ou existencial com Ettore Scola, herdeiro da comédia italiana surgida no pós-guerra. Já na década de 1980, toda a força e originalidade do cinema mediterrâneo continua presente nos irmãos Vittorio e Paolo Taviani. Os anos 1990 trazem Giuseppe Tornatore “Cinema paradiso”, Maurizio Nicheti “Ladrões de sabonete”, Gabriele Salvatore “Mediterrâneo”, Daniele Luchetti “O senhor ministro”, Nanni Moretti “A missa acabou”, Gianni Amelio “Ladrão de crianças” e, novamente, Monicelli “Parente é serpente”, Scola “A viagem do capitão Tornado” e Fellini “A voz da lua”.



