Vou tentar ao máximo desvincular essa crítica da polêmica que envolve esse filme, lançado em ano de eleições presidenciais. Embora alguns fatores do filme sejam evidentemente voltados para intuitos políticos, não é o que pretendo analisar neste texto.
“Lula, o filho do Brasil” é uma cinebiografia do atual presidente da República, Luís Inácio “Lula” da Silva, baseada na obra homônima da jornalista Denise Paraná. A história começa no nascimento do presidente em 1945 e vai até a liderança do sindicato dos metalúrgicos, durante a ditadura militar.
Não me espantaria se o filme chamasse “Um filho de Lindu”, aliás, talvez fosse até mais adequado do que o título original, uma vez que a narrativa se concentra a maior parte do filme em Dona Lindu (interpretada por Glória Pires, de “Se eu fosse você”). Há um grande foco em Lula, claro! Mas o que comprova a importância da mulher na história é o próprio final da produção.
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O filme termina com a morte de Dona Lindu, enquanto Lula está preso. Ou seja, o roteiro não se preocupa em terminar o arco narrativo da prisão do sindicalista, simplesmente joga frases na tela no pior estilo “o que ocorre depois disso”, próprio desses tipos de produção.
Não li o livro, portanto não posso dizer se foi falha da adaptação ou do texto original.
Entretanto, o filme é muito bonito esteticamente. Fábio Barreto (de “O Quatrilho”) se torna um poeta quando junto de Gustavo Hadba (diretor de fotografia), montando uma série de quadros belíssimos durante toda a história. Barreto traz essa intensificação do cinema-arte, que tem todo um toque ainda mais especial com a trilha instrumental de Antônio Pinto e Jacques Morelembaum, simplesmente maravilhosa, dando o tom certo ao filme. Isso tudo visando que o longa foi feito propositalmente para emocionar e solidarizar o espectador com aquele personagem. O diretor consegue inclusive colocar poucas falas em grande parte da produção, deixando a imagem falar, o que ela o faz e muito bem.
Alguns personagens estão bem construídos (como o pai de Lula, que se despede do cachorro, mas não da família, quando vai para São Paulo), outros nem tanto (Juliana Baroni como Dona Marisa é quase uma figurante em meio à narrativa sindicalista do filme). Mas os astros são Glória Pires como Dona Lindu e o iniciante Rui Ricardo Diaz como Lula em sua fase adulta. O ator constrói um Luís Inácio bem realista e, apesar de o Brasil inteiro saber imitar nosso presidente, faz uma voz igual à de Lula, sem cair no escracho. Os gestos, a entonação e mesmo os erros de concordância durante os discursos ajudam a construir o personagem de forma tão detalhada que realmente impressiona, ainda mais quando Barreto intercala cenas reais de momentos históricos de nosso país com filmagens da produção. Glória Pires faz uma Dona Lindu sempre calma, confiante, batalhadora, firme e determinada.
As músicas cantadas, entre os sucessos “Você”, de Tim Maia, “Estúpido Cupido”, de Cely Campelo e “Saudosa Maloca”, dos Demônios da Garoa, ajudam a ambientar a época junto ao ótimo figurino (de Cristina Camargo) e elementos de cena detalhados (do diretor de arte Clóvis Bueno), que inclui um cartaz do Nelson Gonçalves das antigas.
No resumo, apesar de uma narrativa um pouco corrida às vezes (problema da maioria das adaptações de livros), Fábio Barreto constrói uma bela poesia visual em cima da história de Lula. Ou seria da Dona Lindu?



